Contra debates superficiais e ranzinzas

Talvez eu fuja um pouco do jornalismo nesse texto. É provável que fale mais de comunicação como um todo. Mas vamos lá…

Queria ter escrito antes sobre o assunto, mas acho que ainda vale uma palhinha sobre essa mania chata de todo mundo ter opinião extremista sobre qualquer coisa que se torne popular. Curioso é que muitas coisas terminam se tornando cada vez mais populares por causa das tais opiniões extremistas.

A primeira vez em que isso me incomodou foi ouvindo essa música aqui, da Banda Mais Bonita da Cidade. Lembram dela? Oração… música bonitinha, simplesinha. Não acho um primor, até hoje não entendo o que significa dizer que o amor cabe na penteadeira, mas também está longe de ser a “pior música do universo”, “um lixo” e que tais. Só que as minhas timelines de Twitter e Facebook na época viraram uma praça de guerra entre os que viram ali uma música revolucionária, fantástica e os que praticamente tinham nojo da música. Pera lá… será que é pra tanto? E talvez esse clima de guerra é que a tenha tornado tão popular.

O problema é que essa postura se repete diversas vezes. Nessa virada de ano, especificamente com Michel Ai Se eu te Pego Teló e BBB. O primeiro foi avacalhado por um certo sentimento de “esse cara está sujando o nome do Brasil lá fora com essa música”. Como se a grande maioria dos sucessos populares estrangeiros fosse composta por letras absolutamente construtivas ou que música brasileira boa só possa ser concebida pelo Chico Buarque. Ou será que todo mundo curte ouvir música do Chico Buarque numa festa de aniversário ou em uma boate?

No caso do segundo, é comum ouvir gente se referindo a quem curte o programa como “bando de desocupados” e blablabla. Queria entender qual a diferença entre buscar entretenimento vendo BBB e vendo um filme pipoca ou assistindo uma série americana ou vendo um documentário recheado de cultura inútil. É tudo entretenimento, nenhuma dessas opções vai fazer de alguém mais burro. “Ah, mas lá fora o Big Brother durou apenas alguns anos, só no Brasil chegou à edição 12!”. Sinceramente? F… Talvez no Brasil tenha durado mais porque faz parte da nossa cultura se divertir com esse lado voyeur da coisa. Talvez no Brasil, a Globo tenha sabido administrar o programa melhor do que em outros lugares. Talvez, no Brasil, existam menos opções boas nesse horário pra competir com o BBB.  Enfim… aqui, as pessoas curtem. E ninguém precisa se envergonhar ou ser taxado disso ou daquilo.

Essa mania de criticar por criticar, sem nem entender direito do que se trata, sem se informar corretamente sobre o assunto, muitas vezes afeta também o jornalismo, infelizmente. Quem não se lembra da história da cartilha distribuída pelo Governo Federal que supostamente “ensinava a escrever errado”? O assunto gerou diversas críticas, incluindo piadinhas que associavam os erros de português ao então presidente Lula. A lógica era simples: “se um livro tolera o uso de “nós vai”, dane-se o contexto, vamos bater nele”. Só que no meio de tanta pancada, a Carta Capital resolveu entender como o Ministério da Educação pode permitir uma publicação com esse tipo de lógica. E trouxe à tona algumas explicações importantes: por exemplo, que existe uma linha de pesquisa entre acadêmicos de língua portuguesa que se dedica às mudanças que a linguagem oral é capaz de exercer sobre a língua, entende que a língua portuguesa sempre sofreu mudanças e que alguns termos, para fins de comunicação, conseguem exercer o seu papel, mesmo que ditos de forma considerada “equivocada”.

A coisa muda de figura… e só entendendo esse lado da história é possível iniciar um debate com um mínimo de qualidade. Se formos nos basear em uma visão meramente superficial, vamos andar em círculos, continuar argumentando em 140 caracteres sobre assuntos que merecem bons papos de bar, ótimos debates.

Recomendo a vocês dois textos inspiradores sobre o assunto Michel Teló, que li essa semana. Seguem os links:

- Michel Teló representa, sim, a nossa cultura

- Sobre Michel Teló e as discussões rasas das redes sociais

PS: E não é que eu consegui puxar o texto para jornalismo? Curti.

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